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quarta-feira, 4 de maio de 2016

159cm, por Rogério Paulo E. Martins (#01/2016)

159cm é uma rubrica nova na Pomar de Letras, onde esporadicamente o autor nos dará a sua opinião e visão do mundo. Desde temas sérios a divagações surreais e disparatadas, tudo cabe em 159cm.


"Like my selfie"


Esbarrei, outro dia, numa publicação no facebook em que a fotografia de um miúdo com o seu cachorrinho era acompanhada duma descrição na qual aquele se desculpava do seu comportamento e fazia juras de grande amor pelo canídeo. Não sabendo do que se  tratava e com a curiosidade atiçada, por os mais de mil comentários, abri a publicação e dei uma vista de olhos pela miríade de reacções para perceber o que se houvera passado. Rapidamente, por entre os insultos ao miúdo percebi que, em nome dos quinze segundos de estrelato na Internet, este gravara um vídeo em que maltratava o animal. Não vi o vídeo, mas pude perceber por entre aquelas reacções e outras publicações com que me deparei, que o indivíduo chegou a ameaçar largar o cão janela abaixo, caso chegasse a determinado número de “gosto”.

No dia anterior, ficara perplexo com a notícia de uma jovem nos E.U.A. acusada de cumplicidade na violação de uma amiga, porque, ao invés de ajudar a amiga que estava a ser violentada, a jovem achou aquela uma oportunidade ideal para pegar no seu “smartphone” e partilhar a violação em directo no Twitter. Segundo a própria, a intenção era que alguém chamasse a polícia, porque é claro ela estava muito ocupada a partilhar o momento na sua página pessoal e não poderia, ser ela a ligar para as autoridades, ou ajudar a amiga (segundo a notícia, a rapariga ria-se, enquanto filmava e a outra era violada, e a sua única acção foi puxar uma das pernas da vítima, ao invés de atacar o violador). A integridade física e mental da amiga era inferior face ao possível número de seguidores e “likes”.


Agora, deparo-me com o relato de uma estátua, num edifício património nacional, escaquilhada por causa de uma fotografia. Até poderia ter sido um acidente e muito provavelmente até daríamos por nós a relatar algumas maluquices da nossa juventude, sentindo uma certa empatia para com o jovem. O problema é que todos estes casos têm um ridículo denominador comum, que passa pela “fama” nas redes sociais. Uma fotografia, já não vale pelo seu interesse artístico, ou pelo momento captado, um vídeo não regista um momento que queiramos guardar para recordar futuramente; hoje em dia as cousas valem “likes”, seguidores e visualizações; valores efémeros que como o insecto do mesmo nome, vivem apenas para a posteridade. A grande diferença é que as efémeras vivem um dia intenso em que procuram procriar e perdurar a espécie, vivem intensamente, para poderem existir, enquanto estes falsos valores sociais nos encaminham para que não existamos mais, mas pelo menos alguém fez “gosto”.

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